GRAFIFÁCIL

Rua dos Poiais de S.Bento, Nº44 - Lisboa
 
"No tempo do outro gajo que era um granda caipira", já António Trovão da Silva passava os dias e as noites a tocar nas incríveis manas Heidelberg... 

Isto podia ser o picante princípio de um folhetim maroto, se essas Heidelberg fossem três valquírias alemãs todas muito loiras e se o Sr. Trovão, esse neto de Gutenberg, gostasse mais de brincadeira do que de folhetins. Mas quis o destino que o rapaz Trovão, nascido em Évora, "num dia em que havia pancadaria de criar bicho" (12 de Outubro de 1930), tivesse pela frente, não um mundo de delícias femininas internacionais, mas de ardentes aventuras tipográficas. 

"Isto começou há muito tempo. Eu já trabalhava cá fora mas fui aprendendo com os padres das oficinas de São José. Aquilo é que foi levar nas orelhas, mas olhe, tinha jeito pra coisa, fiz o exame em três tempos, virei tipógrafo oficial e aqui estou". 

Descobrir o Sr. Trovão não é coisa difícil, só tem que olhar para a direita, ali quando a Calçada vira Rua e os eléctricos cantam a despique com o faduncho da telefonia. A Grafifácil é um espaço que parou no tempo e, como diria a minha avó, faz de conta que é museu. Lá estão as manas Heidelberg a trabalhar como no primeiro dia, três espectaculares máquinas do tempo em que as coisas eram como o amor - eternas. "Ó menina, isto para trabalhar não há como os alemães, estas miúdas já têm mais de 50 anos e parece que nasceram ontem. É uma categoria." 

O Sr.Fernando fuma sobre o assunto e diz que sim. "Eu só cá estou para dar uma ajuda. O que eu gosto é de ir ao carapau ali para os lados de Setúbal". A paixão pela pesca mistura-se com histórias à filme noir, "Ó menina, isto tanto se fazia o folhetim secreto para a Esquerda como o jornalzinho para a Direita." As letras que gritavam PIDE eram usadas para sussurrar LIBERDADE (ou seria ao contrário?). O Sr. Trovão desdobrava-se entre o sindicato e a propaganda. "Aquilo é que eram tempos". "Lembro-me do outro gajo ministro que usava lacinho à gato, todo muito importante, que não conseguia dormir com o barulho das máquinas e foi fazer queixa à polícia, ora o chefe da esquadra estava feito com o regime e só disse "Se vês o que está ali, enfio-te os cornos lá dentro", assunto acabado, mas bom, bom foi o safio que nós pescamos da última vez, lembras-te Fernando? Aquilo é que era um peixão". 

Há nostalgia no ar, tem aroma a óleo, papel velho e cigarros. A telefonia solta o vozeirão da Amália, as manas Heidelberg acompanham com o ritmo, o eléctrico mete-se ao barulho com o seu trimmm de serviço. O Sr. Fernando puxa mais um para fumar e o Sr. Trovão pensa na tinta toda que gastou para escrever a vida... "valeu a pena, menina..." 

Isto podia ser o poético final de um folhetim lisboeta. 
E é mesmo. 

"Sr. Trovão, acorde as manas. Temos texto fresquinho!"

Comentários

Parabéns pela ideia e pelo seu trabalho, vi a reportagem no canal da globo sobre si e adorei.
Lembrei-me que a minha cidade, Torres Vedras ainda tem umas lojas desse género assim como outras que são como que uma reciclagem da antigas com trabalhos manuais e personalizados. Fica aqui a ideia se lhe interessar.
Abraço
palucha Perdigão
http://conversasnutritivas.blogspot.pt/

Adoro teu trabalho...é original, é prazeroso demais ler e ver teu espaço!!!
Estou sempre ansiosa, esperando teus ACHADOS!!
Beijo grandeeeeeeeeeeeee

olha o meu querido vizinho Sr Trovão!

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