SR. ZÉ - O AMOLADOR DO SLB

Se ter uma profissão medieval já não é pêra doce nos dias do “vai-se andando”, fazê-la numa motorizada benfiquista, é um autêntico desafio ao mundo capitalista, pois aqui o Sr.Zé, papoila saltitante de alma e coração, acaba por só vender a um terço da população - que ele quando passa ali pelos lados de Alvalade é recebido “à pedrada e tudo”, actividade, também ela, com o seu quê de arcaico.
 
Ora o Amolador é, como todos sabem e poucos têm coragem de admitir, um descendente directo do Deus Pan, que deambula pelas cidades com a sua mística “gaita de porqueiro” emitindo sonhadores acordes que despertam e reúnem rebanhos de gentes com facas, tesouras, floretes e samurais, assim como panelas (lá está outra vez a referência a Pan), tachos e outras relíquias que já viram melhores dias.
 
Conseguir apanhar uma destas misteriosas personagens é também uma proeza lendária, pois tanto estão a assobiar na Pontinha, como de repente estão a afiar em Algés. Mas o destino do mortal não falha, e fui dar com o Sr.Zé, com a sua famosa motorizada estacionada, a soltar suspiros de Marco Paulo ali para os lados de não-sei-onde. Sem naifa para afinar, não fui de modos, meti conversa.
 
- Oh Sr.Zé, então a bicicleta?
- Oh menina. Então não? Deixei-me disso. Era cada trambolhão! Uma vez ia aqui por esta rua, e foi tudo às cambalhotas até ir partir a cabeça lá ao fundo. Chiça…
-  …
 
E foi assim que eu soube que o Sr.Zé, nascido e crescido ali no Bairro de São João, já pedalava o corcel desde os 10 anos, aprendendo os segredos do ofício ancestral com o pai. Mas a cidade fez o favor de se fazer grande e o Sr.Zé não foi parvo. Comprou a motoreta e logo a pintou com a cor do Glorioso, a decorou com anjinhos barrocos e nossas-senhoras-milagreiras, só por causa das coisas. Quanto à publicidade foi mesmo pintada à mão e acabou-se, eram “alicatos, assentencia auto e macanica otomovel” agora são tesoiras, facas e “tacãos” que é como quem diz tachos.
 
Como manda a Ordem dos Amoladores, o Sr.Zé é um bem-disposto e adora contar histórias castiças onde entram, invariavelmente, os “gajos da Ramona” (expressão-delicia para designar os agentes da autoridade e não uma alegre trupe de travestis de um bar ali prós lados do Cais do Sodré).
 
Claro que negócio “anda dificil e tal” mas se o Benfas continua não é este fervoroso adepto que vai parar. Por isso, se tiver a sorte encontrar fica já a saber os preços: a Faca é 1.50€, a Tesoura 2,50€ e os Chapéus, ora de chuva ora de sol são a 5€ porque “dão mais trabalho comó caneco, pralém que até podem ferir uma vista”.
 
E agora que já sabe quem ele é, guarde as pedras e traga as facas. Que qualquer dia já só encontramos personagens como o Sr. Zé em livros de mitologia. 
 
 
Don't let the Bruce Springsteen style fool you. This Boss doesn't sing a bit, but has a magic harmonica that will bewitch your senses. Mr.Zé is one of the rare knife sharpeners that still works in the Lisbon area. The only big diference between him and the others, apart from his sense of humour, the taste for popular songs, the barroque angels that show up everythime he arrives, and is crazy passion for one of Lisbon's biggest football teams (Benfica), is his enchanted red motorbike, where he can sharp almoust every knife, dagger or sword that you usually carry and also fix that Mary Poppin's umbrella that doesn't make you fly anymore. So, if you get the chance, catch him, cause guys like him, baby, they were Born To Run.

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